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Os corvos

Mais um dia cinzento, parece que vai chover mas provavelmente não irá acontecer. O vento sopra, ou numa rajada mais forte, ou nem se sente. A claridade não é muita, mas ela precisava se sair daquele ambiente tão pesado em casa. O parque ficava a uns metros, era só preciso descer a rua. Vestiu no quispo e cachecol, calcou as botas, pegou na mochila e saiu batendo com a porta. Sentia o sangue a ferver, sentia-se quente, sentia a necessidade de gritar. Caminhava depressa, com o quispo aberto, cachecol e cabelo ao sabor do vento.


As árvores estavam completamente despidas, apenas se via a terra e pequenos ramos no chão. Envolvida naquela agressividade vai até um pequeno riacho, onde o som da água a passar por entre as pedras e ramos a conseguia acalmar. Ali o ambiente, apesar de frio e despido, tinha um pouco de verde de musgo, ervas e a tentativa de flores selvagens crescerem naquele ambiente com pouca inóspito. Senta-se encostada a uma árvore, abre a mochila e tira o seu caderno. Estava gasto por andar sempre consigo, as folha ocupavam espaço de já tanto terem sido escritas e usadas.


"Parece que esta tudo bem, mas também escondo o que não esta com um sorriso. Aguento tudo cá dentro, para estar lá para os outros. São aparências mantidas, problemas menores perante outros. Porque tenho que estar la para os outros, porque tenho a vida bem e nenhum problema que seja comparado ou precise de atenção.


Só que é um balde de água que já esta cheio, e vai recebendo mais e mais gotas até começar a transbordar lentamente. Sempre a ouvir, a dar, a estar. E quando quero estar sozinha e afastar-me é uma revolução. O problema sou eu que não ajo da maneira adequada, não os outros por estarem embalados na roda da presença. 


Sinto que o meu mundo esta abalado, virado do avesso. As decisões que foram tomadas, por pensar que é só mais uma oportunidade porque é só uma fase, começam a ser repensadas, porque por quanto mais tempo vai ser capaz de aguentar sentir-se sugada. O cérebro quer reagir e assumir o controle, mas coração sente bastante e agarra-se as memórias, criando mais dor.


Sem vida, drenada, cinzenta como os dias, sem uma melhoria a vista. Quero fugir, quero tirar os nós a estes laços e deixa-lós ir. Largar todas as expectativas que têm sobre mim e reinventar-me. Mas porque é que não me deixam..."


Alguns corvos vao pousando perto de si, fazendo os sons agudos que a trazem de volta ao mundo real. Fica alguns momentos a observa-los e apercebe-se que o seu corpo esta a ficar gelado e é hora de voltar a casa.


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